Sustentabilidade e avanço da economia são duas faces da mesma moeda

Ministro diz que temas ambientais passaram para o primeiro plano. Francisco Ferreira pede mais transparência às empresas.

Economia e sustentabilidade são dois conceitos complementares e, sobretudo, aliados no desenvolvimento de projetos empresariais lucrativos e na construção de um Mundo melhor. A ideia foi defendida por João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Ação Climática, ontem, durante uma conferência sobre o tema da sustentabilidade inserida no programa Retomar Portugal, organizado por BPI, Jornal de Notícias e TSF.

Para Matos Fernandes, “aqueles que disseram que economia e sustentabilidade eram faces opostas da mesma moeda enganaram-se redondamente”. O ministro explicou que a vertente ambiental passou, nos últimos anos, a adquirir um protagonismo nunca antes visto. “O ambiente deixou de ser o pano de fundo das outras políticas para passar a ser algo com que temos de nos preocupar para estarmos no centro do desenvolvimento económico e social”, vincou. Por isso, conforme o próprio Matos Fernandes defendeu, o caminho passa por um investimento forte em neutralidade carbónica, de maneira a “pôr a economia a crescer, criar emprego qualificado e ter melhores condições ambientais”.

Esta visão foi corroborada por Daniel Traça, diretor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE). “Um mito que temos de esbater é o de que haja uma escolha entre a economia e a sustentabilidade. A prazo, uma economia mais forte, é uma economia sustentável porque qualquer outro tipo de economia não sobrevive”, garantiu Daniel Traça. O diretor da Nova SBE assegurou ainda que a esfera sustentável constitui uma grande aposta de futuro para as empresas: “Daqui a 10 anos, vamos olhar para isto como olhamos para o digital. No digital, quem se mexeu cedo conquistou o mundo. Com a sustentabilidade vai ser exatamente a mesma coisa”, afirmou.

Empresas têm de se adaptar

João Gunther Amaral, chief development officer da Sonae, reforçou igualmente a importância das empresas se ajustarem a uma realidade há muito anunciada. “A nossa forma de viver está em transformação. Isso é uma oportunidade enorme para as novas empresas e para as que já existem de se transformarem e encontrarem novas formas de fazer negócio”.

Precisamente a respeito do posicionamento empresarial, Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, mostrou-se crítico sobre a forma como o setor se tem debruçado sobre este assunto. “É preciso que as empresas melhorem a transparência e sejam mais rigorosas na informação sobre a sustentabilidade. Precisamos de olhar a montante para aquela que é a necessidade de uma transição das empresas neste aspeto”, referiu.

Do lado da Banca, Ana Spratley, diretora-executiva do BPI, reconheceu “que ainda se pode fazer mais”, mas garantiu que a perspetiva sustentável já é tida em conta pelas instituições bancárias na hora de financiar novos projetos. “Hoje em dia, não há uma reunião com um cliente em que não surja a questão de fazer um financiamento segundo critérios de sustentabilidade”.

João Matos Fernandes
Ministro do Ambiente e da Ação Climática
“Os que disseram que economia e sustentabilidade eram faces opostas da mesma moeda enganaram-se redondamente”

Ana Spratley
Diretora-executiva da unidade Corporate do Banco BPI
“Não há uma reunião em que não surja a questão de fazer um financiamento segundo critérios de sustentabilidade”

Daniel Traça
Diretor da Nova School of Business and Economics
“No digital, quem se mexeu cedo conquistou o Mundo. Com a sustentabilidade vai ser exatamente a mesma coisa”

João Gunther Amaral
Chief development officer da Sonae
“Isto é uma oportunidade enorme para as empresas se transformarem e encontrarem novas formas de fazer negócio”

Francisco Ferreira
Presidente da Zero
“É preciso que as empresas melhorem a transparência e sejam mais rigorosas na informação sobre a sustentabilidade”

Aposta forte nas renováveis vai compensar
Produção de energia solar no país terá de aumentar oito a nove vezes

Maior recurso às energias renováveis e cada vez menor utilização de energias fósseis. Estefoi, pelo menos, um dos trilhos apontados por Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Ação Climática, durante a conferência de ontem. Como notou Matos Fernandes, as fontes “limpas” são a via mais compensadora para os cidadãos em termos, por exemplo, de custos de eletricidade. “Hoje, a forma mais barata de produzir eletricidade é a partir de fontes renováveis. É muito mais barato produzir eletricidade através daí do que de fontes fósseis”, referiu. Para atingir este fim, o ministro do Ambiente fez questão de realçar a preponderância da energia solar cuja produção, no seu entender, terá de ser aumentada em Portugal. “Só temos cerca de um gigawatt de produção de fonte solar e temos de ter oito a nove. Teremos de ter essa produção porque a fonte hídrica está a chegar ao fim, não tem por onde crescer”, explicou Matos Fernandes. Também para Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, “o caminho passa por usar a grande diversidade de fontes renováveis que existe no país, como a eólica, a hídrica e a solar que estava numa percentagem baixa”. João Gunther Amaral, chief development officer da Sonae, reconhece igualmente a relevância das energias renováveis e informou mesmo que, nas lojas da empresa de que é responsável, se “têm vindo a instalar painéis solares”.

Curiosidade

Em Portugal, 59% da eletricidade consumida provém de fontes renováveis. João Pedro Matos
Fernandes assegura que, no futuro, a meta passa por atingir os 80% de eletricidade produzida a partir destas energias.

715 milhões de euros serão aplicados, através do PRR, na descarbonização da indústria. Estas verbas visam funcionar como um incentivo ambiental às empresas.