Reconhecimento social do professor permitiria atrair os melhores alunos

Reconhecimento social do professor permitiria atrair os melhores alunos

Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior reconheceu que a via docente não é aliciante para os jovens e isso poderá ter repercussões negativas

A carreira docente, em Portugal, precisa de se tornar mais atrativa, sobretudo no Ensino Básico e Secundário de modo a fazer com que alguns dos alunos mais capacitados desejem ingressar nela; algo que não acontece no presente. Quem o garantiu foi Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, durante mais uma conferência inserida no Programa Retomar Portugal – uma iniciativa da responsabilidade do BPI, “Jornal de Notícias” e TSF – que se realizou ontem e que abordou a educação num sentido amplo.

Segundo Manuel Heitor, “existem casos de grande sucesso, em Portugal, nalgumas áreas, mas não no reconhecimento social da profissão de professor”. Na sua opinião, é crucial, portanto, tornar a docência num campo profissional interessante aos olhos dos alunos mais novos, tal como ocorre noutras profissões. “No nosso país, o número de candidatos ao curso de Medicina é três vezes superior em relação a Espanha, em termos relativos. Isso acontece porque há uma construção social desta opção nos jovens e nas famílias”, comentou o ministro. Por isto mesmo, acrescentou, a “opção dos melhores e mais talentosos alunos serem professores é algo que tem de ser também trabalhado”.

Exemplo finlandês

Na mesma linha, Joaquim Azevedo, professor na Universidade Católica, chamou a atenção para o facto de, na sua ótica, “ser necessário estabelecer um plano urgente de dignificação do trabalho dos professores”. Enquanto exemplo de requalificação docente, Joaquim Azevedo enalteceu as políticas levadas a cabo na Finlândia, “onde se fez um investimento brutal nos professores e, hoje, esta profissão é a mais procurada nas principais cidades”.

Artur Santos Silva, curador da fundação “la Caixa” em Portugal, salientou que “há uma aposta que se tem de fazer na formação de professores”. Santos Silva recorreu igualmente ao caso finlandês para notar a importância de subir a bitola de exigência no nível dos alunos que segue a via da formação docente no Ensino Superior: “Na Finlândia só entra num curso superior para ser professor quem estiver entre os 25% dos melhores alunos. Depois têm de demonstrar capacidades de literacia, de lidar com números, de comunicar e de gostar de crianças”, explicou.

Já António Sousa Pereira, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, avisou que existe o risco de, “nos próximos cinco/seis anos, não haver professores em certas áreas do conhecimento”, designadamente no Ensino Básico e Secundário. Para que a qualidade do ensino não seja mais afetada, Sousa Pereira defendeu ainda que “é preciso tomar medidas”, de maneira a que quem escolhe a profissão o faça “de forma voluntária e não porque não conseguiu ir para mais nada”.

Relação entre universidades e empresas é crucial

PME nacionais manifestam ainda pouca abertura para receber alunos vindos do Ensino Superior

A ligação entre o ensino profissional e universitário e as empresas é outro dos pontos que precisam de ser reforçados, em Portugal, para permitir uma melhor e mais rápida integração dos jovens no mercado de trabalho. Esta ideia foi salientada, ontem, na conferência do programa Retomar Portugal.

António Sousa Pereira, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, referiu mesmo que “há muitíssimo a fazer nesta área”. Para aquele responsável, “a ligação entre a universidade e a empresa tem de começar logo ao nível dos estágios que têm de ser proporcionados aos estudantes, para que estes contactem com o ambiente real do trabalho ainda numa fase anterior à sua formação”.

No entanto, Sousa Pereira referiu também que subsiste, ao nível de várias pequenas e médias empresas, “uma resistência em estabelecer mecanismos de cooperação com as universidades”, o que torna difícil o tal contacto dos alunos com o mundo laboral. Situação distinta já acontece, segundo o presidente do Conselho de Reitores, nas empresas de maior dimensão, em que “há excelentes exemplos de cooperação e de inovação que surgem da relação com o sistema científico”.

Também Artur Santos Silva, curador da fundação “la Caixa”, considerou que “ainda há muito a fazer” na ligação entre universidades e empresas, apesar do “bom caminho” já trilhado. No seu entender, “a responsabilidade encontra-se nos dois lados: está no Ensino Superior, que tem de ser mais proativo a captar prestação de serviços às empresas, mas por outro lado também está nas próprias empresas”, que devem entender igualmente os benefícios a colher ao receberem os alunos.

Por outro lado, Joaquim Azevedo, professor da Universidade Católica, defendeu uma flexibilização do ensino universitário, sustentando que este não se deve centrar apenas numa preparação rígida dos alunos para o exercício das suas atividades profissionais, mas antes em oferecer-lhes um leque de ferramentas mais amplo. “Vamos ter de conceber um Ensino Superior muito mais flexível porque vamos ter cidadãos que querem fazer cursos mais livres e outros que querem fazer cursos mais tradicionais. Quando pensamos no Ensino Superior estamos habituados a pensar na preparação para as profissões que existem, mas ele tem de estar aberto a outras possibilidades”.

CURIOSIDADES

Nos cursos de Saúde da Universidade do Porto, que têm as médias mais altas de entrada, a percentagem de bolseiros é de 9%. Já nas Ciências Sociais anda à volta dos 40%. Para Sousa Pereira, as desigualdades condicionam as escolhas.

1,6% do PIB nacional é investido em conhecimento. A meta para 2030, segundo o ministro do Ensino Superior, é chegar aos 3%.