Portugal revela dificuldades em atrair e manter jovens talentos

Políticas fiscais menos rígidas e salários melhores no estrangeiro são alguns dos principais fatores que justificam o fenómeno cada vez mais expressivo

Portugal enfrenta grandes dificuldades na captação e manutenção de jovens talentos empreendedores. Algo que, por inerência, traz consequências negativas no crescimento de startups e de novas iniciativas empresariais em geral. Os negócios das startups e as suas múltiplas especificidades, de resto, estiveram precisamente no foco do debate da conferência ocorrida ontem, no âmbito do Retomar Portugal, um programa levado a cabo por BPI, Jornal de Notícias e TSF.

“Temos, cada vez mais, jovens talentosos que procuram sucesso lá fora, e isso não beneficia o nosso país porque gastamos dezenas milhares de euros na sua formação para eles depois irem para Alemanha, para o Japão ou para os Estados Unidos”, sustentou Luís Carvalho, senior vice-president of Technology da Farfetch. Segundo este responsável, existe mesmo “um problema de retenção e de captação de talentos no nosso país”.

A mesma opinião foi manifestada por António Grilo, professor da Universidade Nova de Lisboa, que considerou que, apesar das startups “terem um capital de atração maior” para os jovens portugueses, estes tendem a procurar o êxito noutras paragens. “Estamos a ficar com um sério problema de talento. Tenho inúmeros ex-alunos que se despediram dos sítios onde estavam e que estão a trabalhar para empresas estrangeiras que, obviamente, pagam muito melhor do que as empresas portuguesas”, exemplificou o académico. António Grilo acrescentou ainda que “o mercado de talento está a ficar seco em Portugal, o que significa que há já, neste momento, muita dificuldade em satisfazer as necessidades das empresas que cá estão”.

Preço dos imóveis

Já Sérgio Santos, diretor central da Banca Digital do banco BPI, referiu que “a política fiscal tem sempre uma influência enorme para a captação de recursos”. O diretor do BPI chamou também a atenção para a questão dos altos valores imobiliários que, na sua ótica, é outro dos fatores decisivos para persuadir os cidadãos nacionais a ficar e outros, do estrangeiro, a estabelecer-se em Portugal. “Hoje em dia, o preço da habitação também tem influência na fixação de talento, sobretudo nas grandes zonas urbanas, como Lisboa, Porto ou Braga”.

De forma a combater este êxodo de pessoas talentosas para o exterior e, em paralelo, fazer crescer projetos como as startups, Heitor Benfeito, director of Corporate Development and Ventures da Critical Software, defendeu o fomento de uma série de políticas em termos fiscais e não só. “Há que ter uma competitividade fiscal que promova a retenção do talento”, reconheceu. Ao mesmo tempo, contudo, Heitor Benfeito salientou que “é necessário dar oportunidades às pessoas de testarem as suas ideias e, eventualmente, criarem os seus próprios negócios”.

Cultura de risco é necessária para financiar e investir

– Mentalidade em Portugal é oposta à que se vê em países como os Estados Unidos

A falta de cultura para a promoção e financiamento de negócios do tipo das startups – associados sempre a uma margem de risco elevada, pela sua natureza embrionária – é uma das lacunas evidentes na tradição empresarial lusa. Esta visão foi defendida pelos oradores que, ontem, marcaram presença na conferência do Retomar Portugal. No seu entender, é exatamente aí que reside a principal diferença para o que sucede nos Estados Unidos, a grande referência de desenvolvimento de startups a nível mundial.

Segundo Luís Carvalho, senior vice-president of Technology da Farfetch, “os Estados Unidos tiveram uma oportunidade histórica que souberam aproveitar, investindo e colocando o dinheiro disponível para que muita gente arriscasse”. A par disto, Luís Carvalho salientou igualmente a importância de se estar disposto a assumir o fracasso neste processo: “Falhar não é negativo, mas sim um momento de aprendizagem e é preciso voltar a insistir e a aprender. Em Portugal, só agora começa a haver esta cultura”, afirmou.

Heitor Benfeito, director of Corporate Development and Ventures da Critical Software, partilhou uma opinião parecida, assumindo que um eventual desaire num projeto empreendedor novo não deve ser visto com fatalismo, desde que haja um espírito de cooperação entre empresas. “Não haveria unicórnios se não houvesse uma taxa significativa de insucessos. O que acontece nos Estados Unidos é que há a capacidade de, rapidamente, se moverem recursos de uma empresa para a outra”, frisou Heitor Benfeito.
Na mesma linha, António Grilo, professor da Universidade Nova de Lisboa, explicou que “continua a haver algumas dificuldades no acesso ao capital de risco” por parte das startups nacionais. O docente universitário considerou ainda impreterível que este tipo de empresas assumam, logo à partida, uma orientação internacional na sua ação. Do seu ponto de vista, “qualquer empresa portuguesa que se queira desenvolver tem de apostar num mercado global, porque nós não temos dimensão para ter sucesso só cá e crescer globalmente”.

Em termos de apoios, Sérgio Santos, diretor central da Banca Digital do BPI, assumiu que “os bancos exigem alguma perspetiva de remuneração estável”. Algo que, conforme o responsável do BPI reconheceu, “para uma startup é mais complicado numa fase inicial”.

António Grilo
Professor da Universidade Nova de Lisboa
“Estamos a ficar com um sério problema de talento. O mercado de talento está a ficar seco em Portugal”

Heitor Benfeito
Director of Corporate Development and Ventures da Critical Software
“É necessário dar oportunidades às pessoas de testarem as suas ideias e criarem os seus próprios negócios”

Luís Carvalho
Senior vice-president of Technology da Farfetch
“Temos, cada vez mais, jovens talentosos que procuram sucesso lá fora, e isso não beneficia o nosso país”

Sérgio Santos
Diretor central da Banca Digital do banco BPI
“O preço da habitação também tem influência na fixação de talento, sobretudo nas grandes zonas urbanas”

Curiosidades

Os Estados Unidos contribuíram para 135 dos 209 novos unicórnios que surgiram já no presente ano. Em segundo lugar – a grande distância –, encontra-se Israel, com 10 casos
de novas empresas desta envergadura.

67% do capital de risco angariado pelas startups portuguesas, no ano passado, é
proveniente do estrangeiro, segundo revelou António Grilo.