Oferta escassa do ramo imobiliário impede baixa nos preços das casas

Inflação de imóveis nos centros das cidades do Porto e de Lisboa constituem, no entanto, uma realidade que diverge bastante do resto do território nacional

Os preços dos imóveis não têm conhecido, este ano, uma grande oscilação por comparação com a época pré-covid, ao contrário do que vem ocorrendo em vários outros negócios que acabaram por sentir mais os efeitos da crise. Um dos motivos que ajudam a explicar esta realidade prende-se com a escassez de oferta de habitações. Isto mesmo foi salientado pelos oradores que participaram na conferência sobre Imobiliário, Construção e Obras Públicas do programa Retomar Portugal, organizado por BPI, “Jornal de Notícias” e TSF, com o apoio da Sage. “A habitação é cara porque não há oferta. O Orçamento do Estado foca-se muito na oferta pública e nós somos apologistas de mais colocação deste tipo de oferta, mas não chega. Não vemos, por exemplo, qualquer medida de incentivo à colocação de oferta privada de habitação, pelo contrário, fala-se sempre de impostos”, comentou Hugo Santos Ferreira, vice–presidente da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII). No entender deste responsável, “a classe média portuguesa não tem resposta na habitação”. Nuno Pargana, diretor- -coordenador do BPI, subscreveu também esta ideia de falta de imóveis para a população em geral como um dos fatores responsáveis pelos valores altos das habitações: “A lei da oferta e da procura é que determina o preço e se há falta de oferta, os preços têm de subir”. Na sua opinião, estando os centros das grandes cidades ocupados e sendo os preços aí tão elevados, investir nos espaços limítrofes poderia ser uma solução: “Isto resolve-se mais nas franjas das cidades, mas não temos visto o aparecimento de grandes projetos e, além disso, o processo de licenciamento demora muito tempo”.

BUROCRACIA PREJUDICA

A propósito desta questão dos licenciamentos, o presidente da comissão diretiva do Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas (IFFRU 2020), Abel Mascarenhas, considerou que as autarquias devem permitir que os prazos sejam agilizados: “O desafio que lanço é apontar-se o prazo máximo de licenciamentos para três meses e sei que há municípios que até o conseguem fazer em menos tempo. Este é o caminho que temos de seguir”. Já Manuel Reis Campos, líder da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) e presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), chamou a atenção para o que considera ser a existência de duas realidades muito diferentes dentro de Portugal. “Há dois países em termos de imobiliário: um que engloba todo o território e cujos preços, no ano passado, estavam em valores de antes da crise de 2008; depois há o Grande Porto e a Grande Lisboa e, de facto, aí existem alguns valores excessivamente altos, mas são zonas pequenas e que não refletem a realidade nacional”.