Indústria tenta reconversão para renascer das cinzas

Pandemia pôs a nu dependência de cadeias de produção e de abastecimento muito distantes

Mesmo com a crise pandémica a marcar ainda o início de 2021, a Comissão Europeia deseja preparar o futuro, ajudando as economias dos estados- -membros a reerguerem-se. Essa retoma tem no fortalecimento da indústria um dos pontos cruciais, sendo que tal deverá, em paralelo, ter em conta a vertente digital e o impacto ambiental da atividade. Os vários pontos de debate que daqui decorrem serão analisados na penúltima conferência da iniciativa Retomar Portugal, organizada pelo BPI, Jornal de Notícias e TSF, em parceria com a Sage.

ÁSIA EM EXCESSO

A covid-19 colocou em evidência o défice de desenvolvimento, na Europa, de certos ramos da indústria e, por via disso, o excessivo recurso ao mercado asiático. Esta é, pelo menos, a opinião de Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade: “Nós abandonamos muita da atividade industrial, convencidos de que podíamos comprar tudo na China ou na Índia e de que não teríamos nenhum problema com isso e, infelizmente, temos. Há setores onde a dependência se tornou muito grande e se a produção se concentrar só num ou dois países, eles vão poder impor preços mais elevados e isso é mau”. Também José Manuel Félix Ribeiro, economista, chama a atenção para o estado de um setor que, na sua ótica, está enfraquecido há muito tempo: “Deixamos praticamente de ter indústria pesada com a adesão à União Europeia. O que tínhamos de indústria química e mineral foi fechado, assim como parte da indústria metalomecânica. O setor da indústria pesada que existia em Portugal, em 1974, foi destruído ao longo de décadas, muito antes da pandemia”. O plano de recuperação económica, elaborado por António Costa Silva, refere- -se à necessidade de um processo de reindustrialização no país. Porém, Pedro Ferraz da Costa mostra-se bastante cético quanto à substância do documento. “Acho que não há plano. Há é meia dúzia de ideias e projetos, quase todos simpáticos e que quase toda a gente achará muito bem, mas não temos ali critérios de definição de prioridades concretas, por exemplo, em relação à parte ferroviária”. Já Félix Ribeiro critica, sobretudo, aquilo que norteou a criação do plano: “É inacreditável que a administração pública tenha de recorrer a alguém de fora para fazer algo que é elementar que seja feito no seu seio. E é admirável que alguém tenha aceitado fazer isto praticamente sozinho. Pediram ao professor Costa Silva uma coisa que ele, só porque tem uma grande noção do que é servir o país, aceitou fazer”.