Faltam recursos qualificados para dar força à inovação

Duarte Pernes

O salto em matéria de ciência e inovação que Portugal precisa de dar está dependente também da sua capacidade de gerar, recrutar e reter quadros qualificados que modernizem o tecido empresarial. A ideia foi salientada por Joana Mendonça, presidente da Agência Nacional de Inovação (ANI), durante a conferência de ontem do programa Retomar Portugal, uma iniciativa levada a cabo por BPI, Jornal de Notícias e TSF. Para a presidente da ANI, “nada se faz sem as pessoas” e, por isso, é essencial, no seu ponto de vista, focar “a questão da qualificação nos jovens e a sua captação pelas empresas”.

Joana Mendonça referiu igualmente que “existem determinadas áreas no país onde há falta de recursos”, acrescentando que existem, inclusive, empresas “a olhar para mercados estrangeiros porque têm necessidade de atrair pessoas de lá”. Um exemplo prático desta realidade, segundo a responsável, pode encontrar-se no próprio organismo a que preside: “Um dos meus desígnios é digitalizar a agência, mas precisamos de recursos humanos na área das tecnologias da informação. Essa é uma dificuldade tanto das empresas como do setor público”.

Pedro Coelho, diretor-executivo do BPI, acompanhou a ideia de ser crucial suprir a carência de mão de obra especializada, de modo a haver uma progressão visível em termos nacionais. “Uma das maiores barreiras ao investimento prende-se com o tema do pessoal qualificado. Há empresas que me dizem que não avançam mais num certo investimento porque não têm recursos humanos para tal, e este é um dos grandes desafios para o país”, defendeu o dirigente do BPI.

Reter talentos é crítico

Ainda nesta linha, Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC, afirmou que “o grande obstáculo ao crescimento reside exatamente na disponibilidade de pessoas”. Na ótica do diretor da COTEC, o cenário atual a este nível é “severo e crítico” e deve-se, sobretudo, à incapacidade de manter os melhores talentos por cá. “É necessária uma política de retenção dos jovens que são formados com recursos portugueses, mas que depois saem porque o mercado lá fora é mais atrativo”, assegurou.

Ao mesmo tempo, Fontainhas Fernandes, presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior, chamou a atenção para a importância de utilizar os fundos monetários à disposição “para fazer uma mudança de modelo económico e apostar na criação de atividades com produtos de maior valor acrescentado”. Só por essa via, garantiu, será possível “reter a mão de obra qualificada”.

Já Eduardo Correia, CEO da Taguspark, esteve de acordo em relação à premência de gizar “estratégias de longo prazo” que criem empresas e retenham jovens de valor, mas mostrou-se pessimista em relação a uma boa política de aplicação das verbas comunitárias. “As experiências passadas em matéria de gestão de fundos não são positivas. Devíamos aprender com os erros do passado e sermos mais rigorosos na forma como alocamos o dinheiro”, assinalou o CEO.

Fundos da “bazuca” europeia podem ajudar empresas nacionais a captar e reter mão de obra especializada.