Falta de meios na saúde gera uma pandemia social

Equilíbrio entre aspetos sanitários e económicos pode, para já, ser a melhor vacina para a população

Se há temáticas que, por causa da pandemia, vão marcando a atualidade de forma evidente e incontornável são as da saúde e do apoio social. Numa altura em que, mais do que nunca desde a chegada da covid-19, se põe em questão a resistência dos serviços de saúde, o programa de conferências Retomar Portugal – organizado pelo BPI, JN e TSF, em parceria com a Sage – faz o ponto da situação, já na próxima quinta-feira.

PREOCUPANTE

Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise covid-19 da Ordem dos Médicos, confirmou o cenário de alarme vivido nas unidades de cuidados intensivos dos hospitais: “É uma situação preocupante. Neste momento, já estamos numa fase de necessidade contínua por parte de doentes críticos e a nossa capacidade de aumentar a resposta é muito reduzida”. No seu entender, as medidas entretanto tomadas com a entrada em vigor do novo estado de emergência são “insuficientes e tardias”. O pneumologista afastou, contudo, a necessidade de um novo confinamento nacional, mas defendeu ser necessária “uma maior antecipação e adaptação local das medidas, o que poderia passar por confinamentos concelhios”. Apesar da conjuntura atribulada, Filipe Froes referiu que o anúncio de vacinas, como a da Pfizer, é já uma luz ao fundo do túnel e que Portugal até poderá dispor de uma no início do próximo ano: “Não acredito que sejamos dos primeiros países a receber uma vacina, mas estaremos no segundo contingente e espero que ela esteja disponível no decurso do primeiro trimestre de 2021”. Em paralelo com a crise sanitária, assiste-se a um agravamento dos problemas sociais. Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, explica que a pandemia veio agudizar a situação dos que já eram desfavorecidos e de outros, até aqui, menos afetados: “Este país já estava marcado por mais de dois milhões de pobres e agora há mais pessoas que ficaram sem rendimentos”. Em geral, aqueles que têm recorrido à Cáritas pedem ajuda para bens essenciais, “como alimentação, eletricidade, luz ou gás, o que para nós é inédito”, acrescentou.

Para Eugénio Fonseca, a segunda vaga deste coronavírus irá causar danos ainda maiores e a vários níveis. Por isso mesmo, o presidente da Cáritas Portuguesa acredita que é preciso encontrar uma harmonia entre economia e saúde pública: “Deve conseguir-se um equilíbrio entre cuidados de saúde e uma economia a funcionar no essencial porque, sem postos de trabalho, não há crescimento económico, mas sim o recrudescimento de problemas emotivos”